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quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Autobiografia


Autobiografia
                                                                         Ninfa Parreiras
Sou mineira, da Pedra Negra, nasci em Itaúna enferrujada de minério de ferro. Vivo bem perto do mar e da floresta. Perto do Arpoador, das Cagarras e da Floresta da Tijuca. Aprecio as pedras, as águas, aquilo que as noites e os dias trazem: palavras e sonhos.
Não desprezo coisas velhas, gosto de aproveitar o que foi útil um dia e está abandonado agora, como uma caixa de papel, um móvel, um livro. Transformo em outra coisa para ser usada ou passo adiante. Isso acontece com as palavras em minha vida: tomo uma palavra e tento descobrir a sonoridade, a beleza ou o estranhamento dela.
Sou escrevedora de histórias. Lavro a palavra, capino as ervas danadas, roço o papel, planto metáforas, derramo a água nascente, passo a enxada, arredo o mato, colho a safra... Saboreio fruta e fruto.
Assim trabalho: escuto casos, humores, rumores, risos, lamentos, choros e transformo em uma lavoura. Ao modo do Drummond, o de Itabira, como meus avós e bisavós, sou uma fazendeira: do ar.


foto: arquivo pessoal, Vale da Perra, Portugal, inverno 2012

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Perguntas ao Rio


Perguntas ao Rio
                                                                                      Ninfa Parreiras

Para onde corres?
Com os dias dormidos
As noites sonhadas

Onde chegarás?
Com as lágrimas derramadas
Com as paixões encerradas

Por que pintas a natureza?
De rosa os sorrisos
De dourado a solidão

Que barcos aportam?
Na margem secreta
A gozar das sombras

O que refletes?
A tua dor
Os teus sentidos

Como debruças?
Nos portos abandonados
Nas palavras guardadas

para o amigo Zetho Cunha Gonçalves, do outro lado do Oceano

Foto: arquivo pessoal, Rio Minho, em Vila Nova de Cerveira, Portugal, inverno 2012

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

o amor abraça o oceano

o amor 
abraça 
o oceano

envolvidos
no lençol d'água
as ondas gemem

da dor
trapaça
ano a ano

revolvidos
de mágoa
os olhos tremem

sem cor
enlaça
o pano

de gemidos
enxágua
o engano

o amor
abraça
oce ano

ocê amo.


                         ninfa parreiras

(foto: arquivo pessoal, oceano atlântico no algarve, portugal, primavera, 2010)

terça-feira, 24 de maio de 2011

SEA

Sea

                   ninfa parreiras

S
Sea  
Sea sea sea
See the air
See the sea
See the sky
See the water
See the wing
See the wind
See the wave
See the be
See the beach
See the breeze
See the key
See the tide
See the sand
See see see
See you
S

foto: arquivo pessoal, Algarve, Portugal, primavera, 2010



segunda-feira, 16 de maio de 2011

estrofes líquidas

estrofes líquidas

                                                        Ninfa Parreiras

as letras fugiram
papel vazio
sem linhas
sem matérias

papel furado
palavra soprada
onde a vírgula?
e os acentos?

pelo vento
voam vazam
as palavras
as curvas

as dúvidas
escondem-se
entre dobras
nós

as letras
cantatas
a tatear
ao mar

onde as estrofes?
escoam
descem
viram espuma

em ondas
bailam
em banhos
d’água doce.

pro gil, do outro lado do oceano

(Foto arquivo pessoal: Atlântico no Algarve, primavera 2010)




sexta-feira, 18 de junho de 2010

ALÉM DA CEGUEIRA

ALÉM DA CEGUEIRA



                                                                              Ninfa Parreiras


Nossa Língua
Nossa Pátria
Nossa Mãe


De luto
Em choro
Na perda


Foi embora um poeta
Partiu um homem
Seguiu o escritor

Saramago
Na dor das palavras
No silêncio dos versos


Na escuridão do milagre
Suas histórias, suas vozes
Seus olhares, milhares


Nos acordam para o caminho
Ver além do mar
Amar além da palavra.


Para o homem que nos fez ver além da cegueira: Saramago

(foto: arquivo pessoal, Silves, Algarve, primavera, 2010)



ATRAVESSAR


ATRAVESSAR


                                                                                                   Ninfa Parreiras



Pela sombra: a estrada, o papel vazio
Pela sombra: a alma, o porto antigo
Pela sombra: o ombro amigo



Atravessar no silêncio
Na calma do dia que ilumina
As horas do porvir



Pela curva: a imagem da infância
Pela curva: o esconderijo, o joelho esfolado
Pela curva: a pipa empinada



Atravessar cada noite cada nada
O pio do pássaro
A praia sozinha



Pedra a pedra num caminho
Pedra a pedra se faz a vida
Pedra a pedra no choro



Atravessar o Atlântico
Pedra à vista
Vida vivida: um verso travesso.


Para a Madalena Santos, bem lá na Cumeada, Algarve, uma vida plena


(foto: arquivo pessoal, Lagoa, Algarve, primavera, 2010)




sábado, 29 de maio de 2010

Oceano de lá























D’outro Lado

           Ninfa Parreiras

Embalos nas ondas
Sonata ao mar
De leve em odes
De cá das marés


De lá
Vento norte
Águas frias
Montes d’água


Leva à areia
Sonhos molhados
Desenhos ondulados
Sombras dos lados

Embola, embala
Lambe a praia
Esparrama
A espuma, a rama


O Atlântico
Gigante d’água
Mar da gente
Solo molhado


Embala e canta
A saudade de lá
A gente que foi
Não mais voltará.

(foto: arquivo pessoal, Algarve, Portugal, primavera, 2010)












domingo, 9 de maio de 2010

AS RELAÇÕES SÃO LAÇOS

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AS RELAÇÕES SÃO LAÇOS


Ninfa Parreiras

Uma pedra?
Uma trilha?
Um rio?


Você? Quem?
Ela? Ele?
Nós?


Soltas
A piscar
A rolar

A cantar
A dançar
A sonhar


A correr
Entre montanhas
Pelos vales


Por caminhos novos
Labirintos de sentimentos
Tecidos entrelaçados

Como letras
Se juntam
Formam palavras


Fazem versos
Melodias
Casos e o dia-a-dia


As relações são laços
De papel
De seda


De algodão
De aço
De mato


Enlaçadas umas às outras
As pessoas se tocam
Se olham


Se descobrem
Encontros
Desencontros


Despedidas
Alegrias
Ventanias

As relações são palavras
Ao vento
A cavalgar sobre pedras


A desenhar o olhar
De espera
De escuta

De ajuda
Do respeito
Calor e dor


Lá no peito
Olhar o outro
Deixar o outro ser


Fazer o laço
Da vida
Do tempo


As relações são laços.


Para a Vani: fazer silêncio, meditar, sonhar...
Com as folhas que caem do outono
(foto: arquivo pessoal, Castelo de Silves, Portugal, primavera 2010)

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Escritora em Silves, Portugal















Escritora Ninfa Parreiras em Silves, Portugal

No dia 17 de Março de 2010, a partir das 10h00, a escritora brasileira Ninfa Parreiras esteve na Biblioteca Municipal de Silves, para um encontro com alunos do 1.º ciclo do concelho. Não faltaram a alusão aos livros “Um teto de céu” e “A velha dos cocos”, publicados pela autora e dirigidos ao público infantil e juvenil.

Na manhã do dia 20 de Março, Ninfa Parreiras dinamizou na Biblioteca uma palestra/formação intitulada “O brinquedo na literatura infantil”, na qual reflectiu sobre as relações e diálogos que é possível estabelecer entre a literatura, a psicanálise e a educação tendo por objecto comum o brinquedo. Esta acção destinou-se particularmente a professores, educadores, animadores e técnicos de Biblioteca.
Ninfa Parreiras é psicóloga/psicanalista, especialista em literatura e trabalha como especialista na Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), no Brasil.

domingo, 4 de maio de 2008

O QUE FAZ DE UMA MULHER UMA MÃE


O que faz de uma Mulher uma Mãe

O que faz uma mãe?
Um casamento?
Uma união?
Um pai?

Como uma mulher se torna mãe?
Com o fazer amor?
Com o gestar?
Com o parir?

O que faz de uma mulher uma Mãe?
A amamentação?
O acalanto?
O ninar?

Como a mulher se sente mãe?
Ao acolher?
Ao repreender?
Ao ouvir o filho?

A mulher se faz Mãe na primeira mirada ao filho
No ventre, no colo, no velocípede
Na velocidade dos anos
Nas videiras dos campos

A Mãe se realiza
Quando o filho lhe chama “mãe!”
E lhe retribui com o olhar de filho
E lhe acolhe em um abraço que não tem fim

Que se esparrama pelos anos
Enlaça, entrelaça
Ponto fio palavra
Abraço laço de filho

Como uma espera de mãe.
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(foto: arquivo pessoal, Margem do Rio Mondego, Portugal, inverno, 2007)
(para a Liseta, mãe da minha querida amiga Lucília)

sexta-feira, 2 de maio de 2008

SILÊNCIOS


Silêncios da Alma

          ninfa parreiras

Estava calada
Fui escutar os silêncios d’alma
Cada pedaço
Cada falta
A Alma fala?
Alma canta?
Alma grita?
Alma pede?
Alma responde: sim,
- tenho um compromisso
Com a minha sinceridade
Com a sinceridade de quem me lê
De quem me vê
De quem
De você.

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(01/05/08)
(foto: arquivo pessoal, Coimbra, Portugal, inverno, 2006)

Encontro



Encontro entre um Homem e uma Mulher


Quando os olhos se encontram
E avistam não mais um mar
Mas um oceano inventado

Quando as mãos não sabem
Como se apoiar
Nem onde tocar

Quando no peito
Surge uma bateria
Do fundo d’alma

Como se chama?
Maria, Antonia, João, José
Pouco importa o nome

Pouco importa se chove
Ou se a lua é cheia
Importa o silêncio dos olhares

Importa o que chega de perguntas
Lá de dentro
Perguntas que não pedem respostas

Pedem braços de desejos
Abraços de palavras
Um tempo feito de aço.


(foto: arquivo pessoal, Coimbra, Portugal, inverno, 2007)

sexta-feira, 11 de abril de 2008

RABISCOS


Esboço de um Inverno

Ninfa Parreiras


Sopro
Solto
Seco
Só.

Risos
Riscos
Rabiscos
Rabanetes.

Galhos
Enganchados
Engatados
Agrupados.

Sem folhas
Sem frutos
Sem ninhos
Sem verde.

Esqueletos
Esboços
Ensaios
De inverno.

(foto: arquivo pessoal, Coimbra, inverno, 2007)