Peneiras
Ninfa Parreiras
Esparramar grãos
Afofar a terra
O que pensam as
peneiras?
Rodear sementes
Cimentar o cultivo
O que sentem as
peneiras?
Germinar palavras
Circular de mãos e
mães
O que dizem as peneiras?
Somente mudas
Molhar a cama vegetal
Versos, sonhos, fotos... Minas ao longe gerais Rio de todos os dias. (Textos e Fotos de Ninfa Parreiras)
Peneiras
Ninfa Parreiras
Esparramar grãos
Afofar a terra
O que pensam as
peneiras?
Rodear sementes
Cimentar o cultivo
O que sentem as
peneiras?
Germinar palavras
Circular de mãos e
mães
O que dizem as peneiras?
Somente mudas
Molhar a cama vegetal
o que esperam de mim?
ninfa parreiras
pesam toneladas páginas
lidas nos ombros
são 60 kg
de ocos ossos
cegas pelancas
e surdas rugas
secaram as tetas
de amamentar
vorazes raposas
vozes de exigências bombardeiam
ouvidos
ditaduras de afetos
nos áudios
parecem podcasts de cobranças
alimentar
o sonho das outras
não é um
construir juntas
sonhar
juntas dá asas à lagarta
minhas mãos
seguram
a caneta
do desabafo
linhas livres
de plumas de passarinhos
(foto: arquivo pessoal Ninfa Parreiras)
Manto do mar
Mareia e
baila
Odoyá, minha
mãe
Iemanjá
Água marinha
Embala
Encanta
O canto de
Odoyá
Renda de lápis-lázuli
Dança a
espuma
Odoyá,
cheiro de mar
Ninfa Parreiras
choro do céu, choro de nuvens
derreteram nas janelas os
sapatinhos
vazias, as botas arregalam
léguas
sem capim, nem algodão
a manjedoura espia
os dias de dezembro
cada manhã, mais carros
nas ruas
nas tardes, volumes nas
calçadas
lojas empipadas de pix,
pay pal, pixels
quando vai chegar o Menino?
onde estão os pastores
e seus animais
por onde andam os reis?
magros e perdidos
pelo Oriente
vamos re-nascer a
infância
acender leves velas
alumiar o caminho
forrar o cocho
com folhas da mangueira
e musgos de quintal
choro seu, choro novo
derreteram as janelas
ficaram as soleiras, a
sós
Foto: autoria desconhecida
Ninfa Parreiras
A árvore de Natal
Brotou na palavra
Salpicada de sonhos
A árvore de Natal
Veio do Norte
Cantarolar violas
A
árvore de Natal
Cresceu na esquina
Tintas madrugadas
A árvore de Natal
Emudeceu de susto
Gota de nascimentos
A árvore de Natal
Semeou do Sul
Escrita de estrelas
A árvore de Natal
Espalhou pelo Nordeste
Conversa de renascimentos
A árvore de Natal
Pingou no Centro-Oeste
Ventania de delicadezas
A árvore de Natal
Assoprou do Sudeste
Semente de alegria
Na árvore de Natal
Subiu o menino
De pique-pega
Quem saudou a criança?
Ela
acabou de nascer
Em uma
árvore de quintal
Milagre do nascimento
Da morte
Renascer do lodo
Fotos: arquivo pessoal, Primavera 2022, Porto Velho, Rondônia
vieram os pastores
o boi e o burro
mais os reis viajantes
um carpinteiro e
uma jovem mãe
de passagem
juntaram feno
na manjedoura
afofaram carinhos
na cabana
de mudas pedras
aconteceu o milagre
a estrela anunciou
o mistério
da vida
o rastro de fogo
tão só
tão cinza
o nascimento
da infância
do Cosmo
Sofreram vários sincretismos por onde se deslocam. São metonímias da alegria, da brincadeira…
Dia de Cosme e Damião
Ninfa Parreiras
Dá-me, bala
Dá-me, guloseima
São Cosme, São Damião
Dai aos médicos
Dai aos enfermeiros
A doçura da missão
Dá-me doces
Dá-me néctar
Ibejis abençoados
Gêmeos de Iansã e Xangô
das fontes brotam
dos risos nascem
Santi Cosme e Damiano
San Cosme y Damián
De La Rioja e Navarra
Dá-me beijinhos de coco
Dá-me maçã do amor
Cocadas e paçocas
Pés de moleques
De meninas e meninos
Ibejis em pipocas e cucas
Baile das Flores
Ninfa Parreiras
Reina a escuridão
Adormecidos jardins
Despertam em balada vegetal
Jacintos e Crisântemos
Margaridinhas e Tulipas
Buscam o molho de chaves
Em passos de veludo
Deslizam Lírios-do-vale
Rompem portões
Goivos e cravos
Papoulas e peônias
Brincam, requebram
Malmequeres vermelhos
Dão um baile
Caules pelo ar
Pétalas em asas
Tilintam sininhos
Campânulas azuis
Bailam Rosas
No azul das Violetas
Campainhas-brancas
Um buquê requebrante
Saçaricos perfumados
Flores em festa!
(poema inspirado
no conto: “As Flores da Pequena Ida”, da obra Contos e Histórias, de Hans
Christian Andersen, tradução de Renata Cordeiro, editora Landy)
Para a amiga Angela Carvalho, Angelita Encanta, de Macapá, que vive pelos jardins fazendo bailes de flores e de palavras.
Canto de Iemanjá
Ninfa Parreiras
Gratidão, Iemanjá
Belas águas
Cá e lá
Odôiyá, Iemanjá
Onda vai, onda vem
Fio pérolas
Iêiêiê, Iemanjá
Manto do mar
Lápis-Lázuli
Gratidão, Iemanjá
Água marinha
A lapidar
Odôiyá, Iemanjá
Pedra da lua
A embalar
Iêiêiê, Iemanjá
De topázio
O sopro d’água
Desenho: Lice Parreiras