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domingo, 29 de junho de 2025

Peneiras


Peneiras

Ninfa Parreiras

 O que dizem as peneiras?

Esparramar grãos

Afofar a terra

 

O que pensam as peneiras?

Rodear sementes

Cimentar o cultivo

 

O que sentem as peneiras?

Germinar palavras

Circular de mãos e mães

 

O que dizem as peneiras?

Somente mudas

Molhar a cama vegetal


(foto: arquivo pessoal, 2025)

sexta-feira, 4 de outubro de 2024

o que esperam de mim?


o que esperam de mim?

ninfa parreiras

 

pesam toneladas páginas

lidas nos ombros

são 60 kg

 

de ocos ossos

cegas pelancas

e surdas rugas

 

secaram as tetas

de amamentar

vorazes raposas

 

vozes de exigências bombardeiam ouvidos

ditaduras de afetos nos áudios

parecem podcasts de cobranças

 

alimentar o sonho das outras

não é um construir juntas

sonhar juntas dá asas à lagarta

 

minhas mãos seguram

a caneta do desabafo

linhas livres de plumas de passarinhos

 

(foto: arquivo pessoal Ninfa Parreiras)


sábado, 3 de fevereiro de 2024

Odoyá, minha Mãe, Ninfa Parreiras

 



Manto do mar

Mareia e baila

Odoyá, minha mãe

Iemanjá

Água marinha

Embala

Encanta

O canto de Odoyá

 

Renda de lápis-lázuli

Dança a espuma

Odoyá, cheiro de mar


(imagens de bordados: Ninfa Parreiras)


 

segunda-feira, 16 de outubro de 2023

sábado, 14 de outubro de 2023

quarta-feira, 21 de dezembro de 2022

Chorinho de Natal

Chorinho de Natal

 Ninfa Parreiras

 

choro do céu, choro de nuvens

derreteram nas janelas os sapatinhos

vazias, as botas arregalam léguas

 

sem capim, nem algodão

a manjedoura espia

os dias de dezembro

 

cada manhã, mais carros nas ruas

nas tardes, volumes nas calçadas

lojas empipadas de pix, pay pal, pixels

 

quando vai chegar o Menino?

onde estão os pastores

e seus animais

 

por onde andam os reis?

magros e perdidos

pelo Oriente

 

vamos re-nascer a infância

acender leves velas

alumiar o caminho

 

forrar o cocho

com folhas da mangueira

e musgos de quintal

 

choro seu, choro novo

derreteram as janelas

ficaram as soleiras, a sós


Foto: autoria desconhecida

 

Bem Brasileira

 



Bem brasileira

Ninfa Parreiras


A árvore de Natal

Brotou na palavra

Salpicada de sonhos


A árvore de Natal

Veio do Norte

Cantarolar violas

 

A árvore de Natal

Cresceu na esquina

Tintas madrugadas

 

A árvore de Natal

Emudeceu de susto

Gota de nascimentos

 

A árvore de Natal

Semeou do Sul

Escrita de estrelas

 

A árvore de Natal

Espalhou pelo Nordeste

Conversa de renascimentos

 

A árvore de Natal

Pingou no Centro-Oeste

Ventania de delicadezas

 

A árvore de Natal

Assoprou do Sudeste

Semente de alegria

 

Na árvore de Natal

Subiu o menino

De pique-pega

 

Quem saudou a criança?

Ela acabou de nascer

Em uma árvore de quintal

 

Milagre do nascimento

Da morte

Renascer do lodo

Fotos: arquivo pessoal, Primavera 2022, Porto Velho, Rondônia




Cosmo

 
Cosmo

               Ninfa Parreiras

vieram os pastores

o boi e o burro

mais os reis viajantes

 

um carpinteiro e

uma jovem mãe

de passagem

 

juntaram feno

na manjedoura

afofaram carinhos

 

na cabana

de mudas pedras

aconteceu o milagre

 

a estrela anunciou

o mistério

da vida

 

o rastro de fogo

tão só

tão cinza

 

o nascimento

da infância

do Cosmo

 (foto: arquivo pessoal, primavera, Niterói, 2022)

 

 

 

terça-feira, 27 de setembro de 2022

Dia de Cosme e Damião


Esses santos vieram do Oriente Médio, abençoam as crianças, os profissionais da saúde… 

Sofreram vários sincretismos por onde se deslocam. São metonímias da alegria, da brincadeira…

Dia de Cosme e Damião

             Ninfa Parreiras

Dá-me, bala

Dá-me, guloseima

São Cosme, São Damião


Dai aos médicos

Dai aos enfermeiros

A doçura da missão


Dá-me doces

Dá-me néctar

Ibejis abençoados


Gêmeos de Iansã e Xangô

das fontes brotam

dos risos nascem


Santi Cosme e Damiano

San Cosme y Damián

De La Rioja e Navarra


Dá-me beijinhos de coco

Dá-me maçã do amor

Cocadas e paçocas


Pés de moleques

De meninas e meninos 

Ibejis em pipocas e cucas

sexta-feira, 2 de abril de 2021

Baile das Flores


Baile das Flores

Ninfa Parreiras


Reina a escuridão

Adormecidos jardins

Despertam em balada vegetal

 

Jacintos e Crisântemos

Margaridinhas e Tulipas

Buscam o molho de chaves

 

Em passos de veludo

Deslizam Lírios-do-vale

Rompem portões

 

Goivos e cravos

Papoulas e peônias

Brincam, requebram

 

Malmequeres vermelhos

Dão um baile

Caules pelo ar

 

Pétalas em asas

Tilintam sininhos

Campânulas azuis

 

Bailam Rosas

No azul das Violetas

Campainhas-brancas

 

Um buquê requebrante

Saçaricos perfumados

Flores em festa!

(poema inspirado no conto: “As Flores da Pequena Ida”, da obra Contos e Histórias, de Hans Christian Andersen, tradução de Renata Cordeiro, editora Landy)

Para a amiga Angela Carvalho, Angelita Encanta, de Macapá, que vive pelos jardins fazendo bailes de flores e de palavras.

 

terça-feira, 2 de março de 2021

Que mulher é esta?

 



Que mulher é esta?                     

 (ninfa parreiras)
Que mulher é esta?
Vem, antes do tempo
Chega! depois da hora

 
Que mulher é esta?
De voz grossa
Fina letra no papel

 
Que mulher é esta?
Carrega sacos, sacolas, sacolés
Cansadas bolsas encardidas

 
Que mulher é esta?
Veste saia justa
Remendada roupa 

 
Que mulher é esta?
De bico fino
Na plataforma

 
Que mulher é esta?
Sobe no salto
E aponta o dedo

 
Que mulher é esta?
Pensa sete coisas duma vez
Assobia, grita, passa batom, beija

 
Que mulher é esta?
Usa coturno e bombacha
Mini-saia e top tudo

 
Que mulher é esta?
Fala palavrão
Amacia as palavras

 
Que mulher é esta?
Boa na escrita
Gostosa de pintar

 
Que mulher é esta?
É você, sou eu, é ela
Somos nós - muitos. Muitas.

 
Que mulher é esta? 
Nas doces e salgadas
Embarcações em movimento.

(Fotos: acervo pessoal, Maura de Freitas Parreiras, primavera, 2020)

 



domingo, 31 de janeiro de 2021

Canto de Iemanjá

Canto de Iemanjá

    Ninfa Parreiras

Gratidão, Iemanjá

Belas águas

Cá e lá

 

Odôiyá, Iemanjá

Onda vai, onda vem

Fio pérolas

 

Iêiêiê, Iemanjá

Manto do mar

Lápis-Lázuli

 

Gratidão, Iemanjá

Água marinha

A lapidar

 

Odôiyá, Iemanjá

Pedra da lua

A embalar

 

Iêiêiê, Iemanjá

De topázio

O sopro d’água

 

Desenho: Lice Parreiras