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sábado, 2 de abril de 2022

A infância é a poesia da vida. A poesia é a infância do mundo - Boris A. Novak / Tradução Ninfa Parreiras


                 I

Os adultos escutam palavras, sem ouvi-las.

Os adultos lêem palavras, sem senti-las.

Os adultos pronunciam palavras, sem degustá-las.

Os adultos escrevem palavras, sem cheirá-las.

Quando os adultos conversam, não cuidam das palavras,

por isso as palavras se enfraquecem de solidão e tristeza.

Os adultos usam palavras, sem amá-las.

Assim as palavras se deformam e envelhecem.

 

As crianças são diferentes. As crianças brincam com as palavras.

A brincadeira conserta as palavras deformadas. A brincadeira

desenferruja as palavras velhas, devolvendo-lhes o brilho juvenil. A

brincadeira gera novas, incríveis, incrivelmente belas palavras.

 

As crianças escutam as palavras. As palavras são a música

das vozes humanas.

As crianças sentem as palavras: são moles? duras? redondas? pontiagudas?

As crianças degustam as palavras: são doces? salgadas? ácidas? amargas?

As crianças cheiram as palavras. As palavras são pólen sobre as flores das

coisas.

As crianças amam as palavras. Por isso, as palavras também amam

as crianças.

 

II

Os adultos observam cores, sem vê-las.

Os adultos percebem formas, sem compreender sua linguagem.

Os adultos vivem na luz e da luz, sem cuidarem dela.

Os adultos arrastam grandes sombras, sem brincar com elas.

Os adultos ocupam bastante (mas muito) espaço,

sem se assustarem uma única vez com sua imensidão.

 

Os adultos observam o mundo com os olhos fechados. Por isso o espaço

se reduz, as sombras morrem, a luz escurece, as cores empalidecem e as

formas emudecem.

As crianças são diferentes. As crianças contemplam o mundo com os

olhos abertos de par em par e admiram as coisas. As crianças brincam

com as cores e as formas. A brincadeira separa o pó das cores pálidas

e lhes devolve o brilho original.

A brincadeira gera novas, nunca vistas e incríveis,

incrivelmente belas formas.

 

As crianças vêem as cores. As cores são a infância da luz.

As crianças entendem a linguagem das formas: são suaves?

agudas? vivas? melancólicas?

As crianças sentem, as crianças respiram, as crianças vêem a luz invisível.

A luz é a mãe do mundo.

As crianças arrastam sombras pequenas, mas brincam com elas.

As sombras são cegas, por isso a luz as leva pela mão

como se fossem crianças.

As crianças admiram o espaço de sua imensa liberdade.

As crianças amam as pinturas.

Por isso as pinturas também amam as crianças.

 

III

Todo poeta é uma criança grande.

E toda criança é um pequeno poeta.

Todo pintor é um aprendiz grande. E toda criança é um pequeno pintor.

 

IV

Esta mensagem tem o temperamento de um poema, de uma ode à infinita

capacidade criativa das crianças. Contudo, lamentavelmente, não posso

concluí-la como um poema. Há muito sofrimento de crianças para poder

calá-lo. Por isso vou deformar o final deste poema. Por responsabilidade pelo

destino das crianças e pelo futuro deste, nosso único mundo.

 

Visitei Sarajevo durante a cruel ocupação daquela bela cidade. Em meio às

horríveis cenas de destruição que mais me comoveram e, por sua vez, me

alegraram, foram precisamente as crianças: eu as via por todas as partes, em

todas as esquinas, como brincavam, como corriam atrás da bola, como se

escondiam e perseguiam, e com pedaços de pau improvisados brincavam de

guerra. Inclusive durante os tiroteios, dos adultos, com absoluta seriedade.

Toda vez que observava isto, me dava calafrios, já que as posições mais

próximas dos franco-atiradores estavam distantes apenas cem ou duzentos

metros. E já se sabe com que frequência os franco-atiradores disparam para

estas pequenas cabecinhas! Esse crime é o mais infame e repugnante desta

guerra! Como é possível que um adulto conscientemente dirija a mira

telescópica para uma criança? Aqui se acaba o mundo! Retiveram-me sentimentos encontrados: junto ao temor por suas vidas compreendi a

profunda necessidade de brincar das crianças de Sarajevo. Depois de

milhares de dias de guerra, de milhares de noites escondidas em sótãos (para

as crianças todos os dias são infinitamente longos), o instinto infantil de mexer e brincar tinha prevalecido. Simplesmente tinham que sair para o

quintal e para a rua, correr e satisfazer sua necessidade de brincar!

 

Bem que eu mesmo quando criança (depois da Segunda Guerra Mundial)

muitas vezes “brinquei de guerra”. Eu me estremeci ao ver as brincadeiras

das crianças de Sarajevo, porque seus brinquedos, como sabemos, refletem

as relações da sociedade “adulta”, os rifles de madeira mostram a guerra em

toda sua crueldade! Que traumas levam as crianças de hoje que crescem na

guerra! Na Bósnia, Ruanda, Somália, no Oriente Médio, no Curdistão e na Chechênia.

 

Que esta mensagem sobre a criatividade das crianças conclua também como

uma defesa do direito fundamental à brincadeira. E como uma advertência

extremamente séria aos adultos, que transformam sua infância em inferno.

Vamos fazer tudo que está em nosso poder para que acabe o sofrimento das

crianças! Para que as crianças não amadureçam antes do tempo!

 

Disso depende o futuro deste, nosso único mundo.

 

Mensagem do Dia Internacional do Livro Infantil do IBBY - International Board on Books for Young People, 2 de abril de 1997, de autoria de Boris A. Novak, publicada e divulgada, no Brasil, pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil – FNLIJ, seção brasileira do IBBY. Notícias nº 1, v.19, janeiro de 1997, traduzida, do inglês, por Ninfa Parreiras.