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domingo, 22 de março de 2026

Sobre os escombros, brota o ritmo


 Poesia da notícia

Ninfa Parreiras

Notícia:

“Violoncelista libanês Mahdi Sàhêli toca em meio à destruição em Beirute”

Nos versos:

Sobre os escombros, brota o ritmo.

Sobre os restos, as cordas.

Sobre os pedaços, o som.

Sobre a poeira, o artista.

Sobre os troços, quatro cordas - Dó, Sol, Ré, Lá.

Sobre o desequilíbrio, o cavalete.

Sobre o desajuste, a alma.

Sobre o abafamento, os efes.

Sobre a fumaça, o espelho.

Sobre a desafinação, as cravelhas.

Sobre a morte, a vida. 

Sob a destruição, a ancestralidade.

Sob a guerra, a música.

 

Foto: crédito: https://www.dailymotion.com/video/xa2j86w

sexta-feira, 6 de março de 2026

Poema para Dafne

 

Poema para Dafne

                                                                   Ninfa Parreiras

os seus pés viram raízes
suas mãos são galhos
seus cabelos são folhas
Dafne perfume de louro
 
Apolo zomba do deus alado
Eros brinca e atira
a flecha afiada
de ouro em Apolo
 
a flecha rombuda
de chumbo em Dafne
atração de amor em um
repulsa de amor na outra
 
na imortalidade da árvore
a ninfa protesta: não é não!
metamorfoseada em planta
Dafne sabor de louro
 
em fuga, a jovem
se transforma
em vegetal-protesto
Dafne cor de louro
 
vai, Dafne,
fugir para o bosque da imortalidade
 
vai, Dafne,
dizer (por todas as mulheres) não é não
 
vai, Dafne,
virar vegetal da glória
 
vai, Dafne,
ser loureiro
 
vai, Dafne,
ser inteira, sementeira

 Imagens:


Apolo e Dafne, Gian Lorenzo Bernini, Roma, 1625

Gian Lorenzo Bernini: Apolo y Dafne. Mármol de Carrara, 1622-1625, 2.43 m., Galería Borghese, Roma.

Maestro del Dado: Apolo y Dafne. Ca. 1500-1562. Grabado. 18.1 x 24.4 cm. Colección de Elisha Whittelsey, The Elisha Whittelsey Fund.



sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Matrioskas


Matrioskas, Ninfa Parreiras


cinco são os bonecos

um mora dentro do outro

Papai Noel distribui

risos e presentes



são cinco as bonecas

uma no ventre da outra

nascidas na Rússia

as Matrioskas

 

de colos misteriosos

abraçam os espaços

os guardados das mães

a memória ancestral

 

transmitem pra filha

pra bebê, pra criança

o corpo em movimento

de escritas

(foto: arquivo pessoal @ninfaparreiras)

 

sábado, 11 de outubro de 2025

Pede

Pede

   Ninfa Parreiras

 Pé de goiaba, de gabiroba

Pé de jabuticaba, de jequitibá

Pé de tudo quanto é fruta

 

É lá que a minha criança

Mora, nas grimpas

Nos galhos garimpados

 

Pé de quintal

Pé de lá no fundo

Do tempo, vento que volta

 

A minha criança pede

Colo, calor, céu azul

Fogãozinho e foguete

 

A criança que me habita

É pó, polvo de abraços

Pede pé de tudo quanto é fruta.

(fotos: arquivo pessoal, Itaúna, MG, 2025)



 

sábado, 13 de setembro de 2025

Sobre Flores e Folhas


Sobre Flores e Folhas

                    Ninfa Parreiras

Saboreio suas folhas
Enceradas de linhas
São mapas vegetais
 
Saboreio suas flores
Inacabados frutos
De raro gosto
 
Saboreio as vestimentas
Em copas e copos
Derramando seivas
 
Ah, abóbora, não
Me deixes a pé
Sem a florida carruagem
 

Fotos: arquivo pessoal, 2025, Caraíva, BA




 

sábado, 9 de agosto de 2025

flashes invernais

flashes invernais

ninfa parreiras

cada cadeira

espera o sentante

cada estátua

desnuda caminha

cada barra

esbarra na névoa

o mar veste-se

de casaco de pele

(fotos: arquivo pessoal, 2025)

 

 






 

quinta-feira, 10 de julho de 2025

Sobripês


Sobripês

 

Ninfa Parreiras

 

Ipês são pedras preciosas

Berços de polinização

Zigue-zague-zum de abelhas

 

Espelham no chão

Pés calçados de pétalas

Floridos lagos

 

De árvores cascudas

Berços de passarinhos

Aninham abrigo e sombra

 

Na floração

Mineralizam os ipês

Néctar de cores

 

O Roxo é feito de ametista

Banhado em ouro é o Amarelo

O Verde é esmeralda

 

O Rosa baila e baila

Vestido de diamante

Ou de turmalina

 

O Branco brinca em duo

Ora é ágata

Ora topázio branco

 

De maio a outubro

Cada um desabrocha

Seu talo em flor-funil

 

O Verde é tão raro

O Branco despetala

Em poucos dias

 

O Rosa e o Roxo

Mudam de roupa florida

Mais de uma vez por ano

 

E o Amarelo é o barroco

Pintando os olhos

De contrastes

 

(imagem: desenho a lápis de cor, Ninfa Parreiras)


domingo, 29 de junho de 2025

Peneiras


Peneiras

Ninfa Parreiras

 O que dizem as peneiras?

Esparramar grãos

Afofar a terra

 

O que pensam as peneiras?

Rodear sementes

Cimentar o cultivo

 

O que sentem as peneiras?

Germinar palavras

Circular de mãos e mães

 

O que dizem as peneiras?

Somente mudas

Molhar a cama vegetal


(foto: arquivo pessoal, 2025)

terça-feira, 13 de maio de 2025

Uma carta de amor tão ridícula

Uma carta de amor tão ridícula

                           ninfa parreiras

Tem olhos brincantes, tem mãos bailarinas, tem coração disparado, tem palpitações, tem sorrisão, tem piscadinha e piscadela, tem palavra que não sai, tem uma lagoa brilhando no olho de cada um, tem lista de coisas a fazerem juntos, tem coraçõezinhos desenhados, tem coisas que nunca se falou nem se pensou antes, tem frio na barriga, tem gelo na alma.

Tem meu bem, tem meu amor, tem amore mio, tem paixão, tem saudade...

Tem uma infinidade de beijos, tem abraços de braços, de pés e de pernas. 

Tem poesia e canção de amor, tem repetecos de músicas, tem balbucios, tem uma escola de samba no peito, tem pernas bambas.

Tem garrafa de mensagem lançada ao mar. E se não tem mar, tem mensagem no bico do pombo-correio.

Tem lua enamorada e sol apaixonado.

Já disse te amo? Vale repetir muitas vezes.

(foto: arquivo pessoal)

 

quarta-feira, 12 de março de 2025

E a lua vai derramar sangue

 


E a lua vai derramar sangue

Ninfa Parreiras

A lua menstruada?

a lua bêbada de vinho tinto?

acobreada e rubra

 

No eclipse lunar total

na penumbra da Terra

parte externa de sombra

 

Lua começa a escurecer 

na umbra da Terra

porção escura de sombra

 

Surge a mordida no disco lunar

toda dentro da umbra da Terra

Lua de Sangue

 

Começa a sair da umbra

desaparece a roupa vermelha

a mordida no lado oposto do disco lunar


Lua sai da umbra

volta a ficar apenas

na penumbra

foto: reprodução de ©Vito Technology, Inc. / starwalk.space


quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

Portal de Planetas

 Portal de Planetas

           Ninfa Parreiras

Abrir a janela do céu

Hora de unificar polaridades

Ora alinhar cada olhada

Ora alinhar cada escuta

Ora alinhar cada aroma

Ora alinhar cada toque

Ora alinhar cada sabor

O universo sopra sinalizações

Com Stellium em Peixes

Vem a compaixão

A sensibilidade

Lua Nova em Peixes

Sol, Lua, Saturno, Mercúrio,

Netuno e Nodo Lunar em Peixes


(foto: Reprodução/Starwalk)

segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

Muda Roupa do Clima

 

Muda Roupa do Clima

                                             Ninfa Parreiras

Entre o luxo e o lixo

O planeta perde as roupas naturais

 

O que vestir no verão?

Se a chuva não chega por aqui

 

Como aquecer troncos e galhos

Se nem cai a temperatura

 

Como conter tanta tromba d’água?

Se não esperava tempestades

 

Como manter a estação de esqui?

Se nem neve há

 

O sertão vai virar mar?

O Saara vai virar rio?

 

A Amazônia vai virar deserto

De secas trilhas? 

Vende-se de tudo

Casas, dietas, parques

 

Vendo o planeta se acabar

E compro o que?

 

Como o lixo pode ser luxo?

Como sustentar o descarte?

 

Não jogamos fora

O fora é dentro

 

De casa, da rua

da cidade, do mar

 

O fora é dentro de mim

De você, de nós

(fotos: arquivo pessoal, Bosque de Canela, 2024)